Criptografia pós-quântica: por que as empresas precisam começar a se preparar agora
A criptografia protege informações que precisam permanecer confidenciais por diferentes períodos. Algumas perdem valor em poucos dias. Outras precisam continuar protegidas por anos ou décadas.
Essa diferença cria uma pergunta: a criptografia utilizada hoje continuará protegendo esses dados durante todo o período em que eles forem sensíveis?
O avanço da computação quântica tornou essa discussão relevante para segurança da informação e gestão de riscos.
Em outubro de 2026, o NIST publicou novas orientações para a transição para a criptografia pós-quântica, dando continuidade aos primeiros padrões publicados em 2024. A recomendação é que as organizações comecem a se preparar para substituir algoritmos vulneráveis a futuros computadores quânticos.
A transição envolve tecnologia, mas também inventário, fornecedores, sistemas legados, classificação da informação, prioridades e planejamento.
O que a computação quântica muda na criptografia?
Grande parte da segurança digital atual depende de problemas matemáticos que são extremamente difíceis de resolver com computadores convencionais.
Algoritmos de criptografia de chave pública, como RSA e os baseados em curvas elípticas, estão presentes em certificados digitais, conexões seguras, assinaturas digitais, aplicações e diferentes mecanismos de autenticação.
Computadores quânticos suficientemente poderosos poderiam comprometer alguns desses algoritmos.
Esse tipo de computador ainda não existe na escala necessária para representar essa ameaça aos sistemas criptográficos atuais. A preocupação está no tempo necessário para preparar uma infraestrutura tecnológica que depende de criptografia em praticamente todas as suas camadas.
Esperar a ameaça se tornar operacional para então iniciar a migração pode ser tarde para determinados ambientes.
Harvest now, decrypt later
Um dos riscos que ajudam a entender a urgência é conhecido como harvest now, decrypt later, ou "coletar agora, descriptografar depois".
A lógica é relativamente simples.
Um atacante pode capturar hoje informações protegidas por criptografia e armazená-las. Mesmo sem conseguir descriptografá-las atualmente, esses dados podem continuar disponíveis para uma tentativa futura caso computadores quânticos suficientemente capazes se tornem disponíveis.
Isso muda a análise de risco para informações que possuem vida útil longa.
Considere dados estratégicos, propriedade intelectual, informações governamentais, registros financeiros ou outros conteúdos que precisam permanecer confidenciais durante muitos anos.
O risco futuro passa a ter relação com uma decisão tomada no presente.
Por isso, uma das primeiras perguntas de uma estratégia pós-quântica deveria ser:
Por quanto tempo nossos dados precisam permanecer confidenciais?
A resposta ajuda a definir prioridades.
O que é criptografia pós-quântica?
A Post-Quantum Cryptography (PQC) reúne algoritmos desenvolvidos para resistir a ataques realizados tanto por computadores convencionais quanto por futuros computadores quânticos.
Em 2024, o NIST publicou seus três primeiros padrões de criptografia pós-quântica.
Esse processo criou uma referência importante para organizações e fornecedores iniciarem a preparação de seus ambientes.
A transição, porém, não consiste simplesmente em substituir um algoritmo por outro.
Antes disso, existe uma dificuldade básica: descobrir onde a organização utiliza criptografia.
Você sabe onde sua organização usa criptografia?
A pergunta parece simples até começarmos a procurar a resposta.
Criptografia pode estar presente em:
- aplicações;
- APIs;
- certificados digitais;
- servidores;
- bancos de dados;
- VPNs;
- dispositivos;
- bibliotecas de software;
- sistemas operacionais;
- serviços em nuvem;
- equipamentos de rede;
- soluções de terceiros;
- integrações com clientes e fornecedores.
Também pode estar incorporada a sistemas antigos que continuam em produção e possuem poucas possibilidades de alteração.
Por isso, o inventário criptográfico é uma das etapas importantes da preparação para a era pós-quântica.
A organização precisa identificar quais algoritmos utiliza, onde são utilizados, quais sistemas dependem deles e quais informações estão sendo protegidas.
Sem essa visibilidade, torna-se difícil definir uma estratégia de migração.
Nem todos os sistemas possuem a mesma prioridade
Encontrar todos os usos de criptografia é apenas parte do trabalho.
A próxima etapa é entender o risco associado a cada um deles.
Um sistema que protege informações com vida útil curta possui uma exposição diferente de outro que armazena dados que precisam permanecer confidenciais pelos próximos 15 anos.
Algumas perguntas podem ajudar nessa priorização:
- Quais informações precisam permanecer confidenciais por longos períodos?
- Quais algoritmos criptográficos estão sendo utilizados?
- Onde estão os sistemas que dependem desses algoritmos?
- Existem sistemas legados com dificuldade de atualização?
- Quais fornecedores controlam parte da infraestrutura criptográfica?
- Quanto tempo seria necessário para substituir determinado mecanismo?
- Existem dependências que impedem uma migração rápida?
Essas respostas ajudam a transformar um problema tecnológico futuro em um plano de risco mais concreto.
A dependência de fornecedores também precisa entrar no planejamento
Poucas organizações controlam toda a sua infraestrutura tecnológica.
Sistemas corporativos dependem de serviços em nuvem, bibliotecas, equipamentos, aplicações SaaS, certificados, dispositivos e diferentes fornecedores.
Parte da transição para criptografia pós-quântica dependerá dessas empresas.
Isso cria questões para gestão de terceiros.
Um fornecedor possui estratégia para adoção de PQC? Seus produtos serão atualizados? Sistemas existentes receberão suporte? Será necessário substituir equipamentos? Qual é o cronograma previsto?
Essas perguntas podem começar a aparecer em processos de avaliação de fornecedores e decisões de arquitetura.
A capacidade de uma organização migrar sua criptografia pode depender diretamente da capacidade de seus fornecedores fazerem o mesmo.
Sistemas legados podem ser um dos maiores desafios
Substituir criptografia em uma aplicação moderna e atualizada pode ser relativamente simples.
Fazer isso em um sistema desenvolvido há muitos anos, com dependências antigas e pouca documentação, apresenta outro nível de dificuldade.
Alguns equipamentos possuem ciclos de vida longos. Outros utilizam componentes criptográficos que não podem ser facilmente substituídos.
Isso significa que a preparação para PQC também pode revelar uma dívida tecnológica que estava escondida.
Durante o inventário, podem surgir sistemas que não permitem atualização, bibliotecas sem suporte ou equipamentos cuja substituição exige investimento e planejamento de longo prazo.
Identificar essas dependências cedo aumenta as opções disponíveis para tratá-las.
Criptoagilidade passa a ser uma capacidade importante
A discussão sobre PQC também reforça outro conceito: criptoagilidade.
Criptoagilidade é a capacidade de substituir algoritmos, protocolos e componentes criptográficos sem precisar reconstruir toda a arquitetura que depende deles.
Um ambiente fortemente acoplado a um algoritmo específico torna qualquer migração mais difícil.
Arquiteturas que permitem substituir mecanismos criptográficos com menor impacto estão mais preparadas para mudanças futuras.
A necessidade de adaptação não termina necessariamente com a transição pós-quântica. Algoritmos podem apresentar vulnerabilidades, padrões podem evoluir e novas necessidades podem surgir.
Projetar sistemas considerando essa possibilidade reduz a dependência de uma única solução criptográfica durante todo o ciclo de vida da aplicação.
Por onde começar?
A preparação para criptografia pós-quântica não exige substituir imediatamente toda a infraestrutura criptográfica.
Há um trabalho anterior que pode começar agora.
Algumas ações incluem:
- identificar onde a criptografia é utilizada;
- criar ou atualizar o inventário criptográfico;
- classificar informações de acordo com seu período necessário de confidencialidade;
- identificar sistemas que utilizam algoritmos vulneráveis à computação quântica;
- mapear dependências de fornecedores;
- avaliar sistemas legados e limitações de atualização;
- acompanhar os padrões e orientações do NIST;
- incluir requisitos de criptoagilidade em novas arquiteturas;
- definir prioridades de migração com base no risco.
Esse levantamento também melhora a compreensão da infraestrutura criptográfica atual, independentemente de quando computadores quânticos capazes de comprometer os algoritmos existentes se tornarão realidade.
A preparação começa antes da ameaça
Não existe hoje um computador quântico capaz de quebrar, em escala prática, os principais algoritmos de criptografia de chave pública utilizados pelas organizações.
Também não existe uma data precisa para quando essa capacidade estará disponível.
A incerteza faz parte do problema de risco.
Migrações criptográficas podem levar anos, principalmente em ambientes complexos, distribuídos e dependentes de sistemas legados e fornecedores.
Ao mesmo tempo, algumas informações protegidas hoje continuarão sensíveis durante muitos anos.
A publicação dos padrões pós-quânticos e o avanço das orientações de transição permitem que as organizações comecem a trabalhar com algo mais concreto: conhecer sua dependência atual de criptografia, identificar os ativos mais expostos e preparar sistemas para mudanças futuras.
A pergunta inicial pode ser simples:
Se fosse necessário substituir um algoritmo criptográfico crítico, saberíamos onde ele está sendo utilizado?
A resposta já diz bastante sobre o nível de preparação da organização.